Com exibições totalmente gratuitas espalhadas pelo Rio de Janeiro, a 6ª Mostra do Filme Marginal ocupa diversos espaços da capital fluminense entre 15 e 24 de outubro. Sob a temática central “Cinema e Emergência Ambiental: Imagens de um Futuro Possível”, o evento reúne 123 produções nacionais e estrangeiras, trazendo à tona debates cruciais sobre a crise climática, racismo ambiental, direito à terra, moradia e diversidade.
Protagonismo feminino e indígena marca a presença de Mato Grosso
Entre os estados participantes, Mato Grosso ganha visibilidade com a exibição de quatro documentários, sendo três deles comandados por realizadoras mulheres. As produções do estado aprofundam narrativas sobre resistência originária e resgatam episódios históricos do período militar.
Um dos destaques é THUTALINÃNSU, realizado em Sapezal e dirigido por Helena Corezoma, integrante da Rede Katahirine. O filme retrata a Associação Thutalinãnsu, instituição criada em 2018 na Terra Indígena Tirecatinga que reúne 60 mulheres das etnias Terena, Paresi, Manoki e Nambikwara. A obra de 20 minutos foca a soberania alimentar, a liderança feminina e a preservação do Cerrado diante das transformações climáticas.
A sabedoria agrícola ancestral também é tema de MOPÁI PJUTA ÃKAKJE’Y – A ROÇA E OS ALIMENTOS MYKY. Com 18 minutos, o curta documental foi produzido na Aldeia Japuíra, localizada na Terra Indígena Menkü, e conta com direção coletiva de cineastas indígenas: Kamtinuwy Myky, Kojayru Myky, Mãnynu Myky, Njãkyru Myky, Njãwayru Myky, Takarauku Myky e Tipuu Myky.
Ainda sobre conflitos fundiários, o documentário CAPIM, assinado por Julia Munhoz e Caio Pimenta, aborda os impactos da pecuária e a recuperação da área dos Xavante de Marãiwatsédé, desalojados na década de 1960. Fechando o quarteto mato-grossense, 60 ANOS DEPOIS, de Flávio Ferreira, investiga as marcas deixadas pelo regime militar no estado a partir do depoimento de sobreviventes da época.
Panorama nacional e internacional da mostra
A abertura oficial do festival, sediada no Cinema Nosso, na Lapa, apresenta pela primeira vez no país o longa-metragem Retorno a Fukushima, dirigido pelo realizador belga Thomas Licata, que investiga os desdobramentos de longo prazo do acidente atômico ocorrido no Japão em 2011.
No cenário brasileiro, a seleção conta com obras expressivas de diferentes regiões, como os premiados curtas Samba Infinito, de Leonardo Martinelli, e Proteção, de Alberto Sena. A grade traz ainda o terror Onde Estamos Seguros, de Thais Scabio e Gilberto Caetano; Capim Navalha, dirigido por Michel Queiroz; Quanto Vale uma Década, de Clementino Junior; e Os Arcos Dourados de Olinda, de Douglas Henrique.
Expansão e relevância do audiovisual independente
Lançada em 2017 com 36 inscrições, a Mostra do Filme Marginal alcançou o marco de 356 obras submetidas em sua sexta edição. A curadoria responsável pela programação é composta por Leila Xavier, Milena Manfredini, Rosa Miranda, Rosy Nascimento e Uilton Oliveira.
A mostra existe para promover a difusão do audiovisual independente, abrir caminhos, dar visibilidade e fortalecer narrativas que a sociedade muitas vezes tenta invisibilizar. É uma celebração da diversidade e da potência das vozes de nossas periferias, afirma Uilton Oliveira, idealizador do evento.
Para além da exibição de filmes de diferentes formatos — incluindo ficção científica, animação, experimental e terror —, as sessões contam com debates abertos com os realizadores. Segundo a curadora Leila Xavier, a proposta é direta: Entendemos o cinema como linguagem crítica capaz de dar visibilidade às populações que vivem na linha de frente dos impactos ambientais.
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