Seca no rio Paraguai reduz calado e ameaça escoamento de safras

Com medição 65 cm abaixo da média em Cáceres, bacia pantaneira enfrenta estiagem severa que também afeta a hidrovia do Tapajós.

Redação Por Redação
Seca derruba nível do rio Paraguai em MT e ameaça navegação e transporte de cargas no Pantanal

Resumo

Com medição 65 cm abaixo da média em Cáceres, bacia pantaneira enfrenta estiagem severa que também afeta a hidrovia do Tapajós.

O avanço de um severo período de estiagem sobre bacias estratégicas do Brasil colocou em estado de alerta as rotas de navegação fluvial no Centro-Oeste e no Norte. O declínio acentuado nos níveis de água de rios fundamentais para a logística do agronegócio, com ênfase no rio Paraguai, impõe desafios crescentes para a movimentação de embarcações de carga e ameaça elevar os custos operacionais do setor produtivo.

Queda drástica no nível das águas no Pantanal

De acordo com dados do Ministério de Portos e Aeroportos divulgados em 18 de outubro de 2026 — baseados no quadro apurado em 30 de setembro com atualizações até 5 de outubro —, a bacia pantaneira opera consideravelmente abaixo dos seus referenciais normais. No município mato-grossense de Cáceres, a régua registrou uma lâmina d’água de apenas 77 centímetros, número distante da mediana histórica local para o período, que é de 1,42 metro — configurando uma defasagem de 65 centímetros.

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O quadro crítico se estende a Mato Grosso do Sul. Em Ladário, o rio atingiu 1,18 metro frente à média de 2,55 metros esperada para a época, havendo projeções de marcas inferiores a um metro entre outubro e novembro. Mais ao sul, em Porto Murtinho, o volume medido foi de 2,38 metros, quando o padrão habitual é de 4,48 metros. Esse corredor é vital para a conexão com portos da Argentina e do Uruguai, transportando commodities agrícolas e minérios.

A perda de calado exige que comboios reduzam a carga útil ou redirecionem rotas, pressionando a rentabilidade dos fretes. Durante a seca de 2024, a movimentação de cargas pelo Paraguai caiu para 3,3 milhões de toneladas, um tombo de 58% frente ao ano anterior, dimensionando o impacto potencial do fenômeno. Apesar dos alertas, o levantamento destaca que não há paralisação integral das viagens nem decreto geral de emergência no canal.

Hidrovia do Tapajós também opera sob restrições

As dificuldades não se limitam ao Pantanal. No Arco Norte, a hidrovia do Tapajós — rota vital para o escoamento de soja e milho transportados pela BR-163 até as estações de transbordo em Miritituba (PA) — sofre com a rápida perda de vazão. Apenas no primeiro bimestre de 2026, a via fluvial movimentou 2,38 milhões de toneladas, sendo 86% compostos por grãos.

No fechamento de setembro, o leito em Itaituba marcou 2,40 metros, acumulando um recuo de 1,91 metro ao longo do mês. Em Santarém, o registro foi de 2,63 metros, após perda de 2,10 metros no mesmo intervalo. Frente a essas condições, levantamentos técnicos da Frente Parlamentar da Agropecuária chegaram a estimar um risco econômico de até R$ 850 milhões para a cadeia produtiva em decorrência de entraves de navegabilidade e dragagem.

Plano de dragagem e investimentos federais

Para mitigar o assoreamento e preservar a passagem de barcaças nos trechos mais sensíveis, o governo federal mantém frentes de intervenção continuada. Na hidrovia do rio Paraguai, estão previstos R$ 94,59 milhões distribuídos em contratos quinquenais, atualmente em seu terceiro ano de execução:

  • R$ 69,6 milhões voltados diretamente a serviços de dragagem, manutenção e adequação de sinalização náutica;
  • R$ 15,42 milhões destinados à supervisão técnica dos trabalhos;
  • R$ 9,57 milhões alocados para a gestão e monitoramento ambiental das áreas operadas.

As intervenções removem bancos de areia e sedimentos acumulados para garantir a fluidez do tráfego comercial, sem promover alterações estruturais no leito natural dos rios. A dinâmica dos próximos meses dependerá fundamentalmente do regime de chuvas na cabeceira dos afluentes e do ritmo das dragagens, fatores decisivos para evitar que o agronegócio de Mato Grosso seja forçado a migrar volumes expressivos para modais rodoviários de custo mais elevado.

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