A combinação entre agricultura e pecuária norteia o modelo de gestão da Fazenda Mirante do Tesouro, localizada no município mato-grossense de Água Boa. O estabelecimento rural conecta o cultivo de grãos e de capim à criação intensiva de bovinos, maximizando o uso da área disponível e agregando valor internamente.
Estratégia de verticalização produtiva
O processo de reestruturação da propriedade começou há 11 anos, quando o produtor rural Gilmar Dell Osbel e um sócio compraram a terra, que na época apresentava pastagens degradadas e estrutura deficiente. Com uma área total de 3,3 mil hectares — sendo 2,1 mil voltados para a lavoura e 1,2 mil para pastagem perene —, a propriedade cultiva soja na primeira safra e milho consorciado com braquiária no período subsequente.
Em vez de buscar a expansão territorial por meio da compra de novas áreas vizinhas, o agricultor optou por intensificar os processos internamente. A produção de milho serve tanto para a cobertura do solo quanto para a alimentação do rebanho bovino que passa pela etapa de terminação antes do envio ao frigorífico.
“Aprendi e faço dessa maneira: é a verticalização. Porque para crescer dos lados é muito caro adquirir uma propriedade de um vizinho”, explica o produtor.
Os benefícios do sistema se estendem para além dos limites da fazenda. Em uma unidade localizada em Canarana, a soja colhida passa por um processo de esmagamento: o farelo resultante compõe a dieta dos animais, enquanto o óleo é reaproveitado na pulverização das lavouras.
“Então, eu faço a arroba com custo mais baixo. E está dando certo. Achei muito melhor do que horizontalizar”, avalia o agricultor.
“Estamos adotando essa prática e o resultado é muito interessante, porque a pecuária entrega muito para agricultura e a agricultura entrega muito benefício para a pecuária”, complementa Gilmar.
Histórico familiar e gestão tecnológica
A ligação da família com o cultivo do milho começou em 1972, quando migraram do Rio Grande do Sul para integrar a colonização do Vale do Araguaia. Naquela época, o trabalho exigia esforço manual e superação de severas limitações logísticas.
“Eu vivi o milho a vida toda”, recorda o produtor, lembrando das dificuldades iniciais e da persistência dos pioneiros na região. “Foi difícil. A gente sabe da luta, da persistência dos que ficaram, mas valeu a pena”, complementa.
No atual formato operacional, a aplicação de tecnologia busca o equilíbrio do sistema agropecuário. O cultivo do milho consorciado com a braquiária dispensa investimentos massivos em adubação e cultivares de teto produtivo extremo, priorizando a estabilidade da palhada e a nutrição animal.
“Eu não faço alto investimento nem em variedades, nem em adubação. Usamos média alta tecnologia”, detalha.
“Nunca fizemos tecnologia altíssima pensando em colher 170 sacas. Mas, pela composição do sistema que fazemos, produzindo 130, 135, 125 sacas, está muito bom”, justifica.
Autonomia de armazém e sucessão familiar
Para mitigar os riscos climáticos durante o período de colheita, a fazenda montou estrutura própria de secagem e armazenagem de grãos, o que garante maior flexibilidade operacional e independência frente às chuvas.
“É muito melhor eu colher um produto um pouco mais úmido, gastar um pouco mais de cavaco para fazer a secagem e energia, do que eu correr o risco de ficar lá na lavoura e de repente vir chuva”, argumenta.
A solidez dos negócios também conta com o suporte financeiro de longa data do Sicredi, instituição que acompanha a família desde a época do patriarca. “Somos grandes parceiros do Sicredi”, pontua o agricultor.
Essa parceria entre gerações é celebrada pela cooperativa. “O Gilmar, por exemplo, começou lá pequenininho, pai dele, a família e hoje ele está neste tamanho administrando. É fantástico ver isso e que a gente fez parte dessa vida”, relata Edgar Marcolin, assessor de negócios da instituição financeira.
Atualmente, a sucessão familiar já está consolidada no cotidiano do empreendimento, com os filhos atuando diretamente na administração de outras unidades ligadas ao setor agropecuário. Para o produtor, o envolvimento dos entes queridos é o principal pilar para a longevidade do negócio. “Eu acho que o principal de tudo, do sucesso, de qualquer atividade, é a família, é poder ter a esposa e os filhos junto”, conclui.
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