O agronegócio brasileiro registrou um alívio nas demandas jurídicas durante o segundo trimestre de 2026, acumulando 448 pedidos de recuperação judicial. O volume representa uma retração de 20,7% na comparação com os 565 requerimentos anotados no mesmo intervalo de 2025, abrangendo tanto produtores autônomos quanto companhias e elos da cadeia produtiva rural.
Fim da sequência histórica de altas e avanço de acordos
O resultado trimestral consolidou uma desaceleração no recurso à Justiça, apresentando também um recuo de 5,5% em relação aos três primeiros meses do ano, quando foram protocolados 474 pedidos. Com esse recuo, interrompeu-se a curva ascendente para o período entre abril e junho observada continuamente nos anos de 2023, 2024 e 2025, de acordo com o monitoramento da Serasa Experian.
Apesar da melhora numérica, o ambiente econômico rural segue desafiador, pressionado pelo endividamento prévio, pelo encarecimento dos insumos e pela maior rigidez na liberação de financiamentos bancários. O head de agronegócio da entidade, Marcelo Pimenta, destacou que o aumento das repactuações extrajudiciais e o fluxo de caixa sazonal favoreceram o cenário:
“A retração nesse segundo trimestre registrada em pelo menos dois dos três perfis analisados, pode estar relacionada a um período de maior entrada de receitas para parte dos produtores, à sazonalidade das atividades agropecuárias e ao avanço de renegociações com credores”, explicou Marcelo Pimenta.
O executivo ressaltou ainda que a redução momentânea não elimina as pressões financeiras estruturais, de modo que a estabilização desse quadro nos meses seguintes ditará se o mecanismo judicial continuará sendo a alternativa final.
Pessoas físicas concentram volume, mas pessoas jurídicas recuam mais
Na divisão por categoria de atuação, os produtores rurais pessoas físicas somaram a maior fatia das solicitações: foram 197 processos no segundo trimestre de 2026, redução de 10,5% ante os 220 registros de um ano antes. Dentro desse grupo, os agricultores sem terra própria — categoria que reúne meeiros, arrendatários e grupos familiares — encabeçaram a lista, com 70 casos. Em seguida figuram os grandes proprietários (51), os pequenos (39) e os médios produtores (37).
Já entre as pessoas jurídicas e empresas do setor, o recuo foi bem mais expressivo, atingindo 34,2%. Foram 160 requerimentos protocolados no período, contra 243 no segundo trimestre de 2025. O segmento da soja concentrou o maior número de crises formais nessa modalidade empresarial, somando 70 processos, acompanhado pela pecuária de corte (28), cana-de-açúcar (15), cafeicultura (13) e cereais diversos (12).
Mato Grosso lidera pedidos no mapa nacional
O ranking geográfico evidenciou forte concentração no Centro-Oeste e no Sudeste. O estado de Mato Grosso permaneceu no topo das estatísticas gerais, respondendo por 107 solicitações, o equivalente a 23,9% de todos os processos do país. O levantamento por unidades federativas destacou:
- Goiás: 84 pedidos (18,8% do total);
- São Paulo: 72 pedidos (16,1% do total);
- Minas Gerais: 54 pedidos (12,1% do total);
- Paraná: 42 pedidos (9,4% do total).
No recorte de pessoas físicas, o território mato-grossense liderou com 49 ações, seguido de perto por Goiás (46), Minas Gerais (23), São Paulo (22) e Paraná (16). Entre as pessoas jurídicas, Mato Grosso também ocupou a primeira posição com 54 ocorrências, seguido por São Paulo (28), Goiás (22), Minas Gerais (21) e Paraná (15).
O comportamento dos próximos meses será decisivo para indicar se a moderação nas recuperações judiciais reflete uma reorganização financeira definitiva da safra nacional ou apenas uma pausa temporária em meio às oscilações do mercado global de commodities.
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