Safra americana revela contrastes entre seca severa e alto potencial

Expedição técnica mapeia lavouras de soja e milho nos estados Unidos e aponta impactos climáticos na produtividade e custos elevados

Oliveira Filho Por Oliveira Filho
Safra americana mostra contrastes entre falta de chuva e alto potencial produtivo

Resumo

Expedição técnica mapeia lavouras de soja e milho nos estados Unidos e aponta impactos climáticos na produtividade e custos elevados

A produção agrícola de soja e milho nos Estados Unidos exibe cenários bastante opostos nesta temporada. Enquanto o Sul enfrenta forte escassez hídrica e quebra de rendimento, outras localidades registram excelentes perspectivas de colheita, revelando um panorama fragmentado entre os estados produtores.

Radiografia do clima nas lavouras

Essas constatações foram levantadas durante a 5ª temporada do projeto América Clima e Mercado, iniciativa promovida pela Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT). O grupo percorreu 13 estados norte-americanos para inspecionar in loco o desenvolvimento das plantações e os fatores econômicos que ditam o ritmo da atividade.

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No Texas, Kansas e Oklahoma, a restrição de chuvas comprometeu severamente o ciclo dos grãos. Segundo o agrônomo Paulo Zorzanello, que atua em uma fazenda na região, a última precipitação expressiva ocorreu em julho, limitando-se desde então a chuvas escassas de até 20 milímetros. Com isso, a soja apresenta porte reduzido, grãos miúdos e episódios de abortamento dentro das vagens.

Diante desse cenário adverso, a média esperada para a soja local despencou de 55 para até 35 sacas por hectare. No caso do milho, a estimativa de produtividade caiu de 210 para cerca de 150 sacas por hectare, evidenciando o peso da seca sobre os resultados econômicos dos agricultores locais.

Custos de produção e impactos regionais

Além dos desafios climáticos, o orçamento dos agricultores americanos sofre pressão direta de despesas operacionais elevadas. O preço do diesel desponta como um dos maiores encargos devido à alta frequência de operações necessárias no campo, somando-se aos dispêndios com adubos.

“Um dos maiores custos dele aqui é o óleo diesel por conta dos vários cultivos, várias operações que precisam ser feitas na lavoura”, afirmam Lucas Costa Beber, presidente da Aprosoja Mato Grosso e Aprosoja Brasil. Ele também cita as reclamações relacionadas aos custos de fertilizantes e combustível.

As variações geográficas também provocaram danos pontuais em outras praças agrícolas. Em Nebraska, ventos fortes destruíram dezenas de pivôs de irrigação e acamaram 40 mil hectares de plantações. Já em Iowa, o oeste sofreu com quedas de rendimento, enquanto o leste e o centro-sul de Illinois exibiram plantações em boas condições vegetativas.

Diferenciação e expectativas de mercado

Em contrapartida, áreas privilegiadas por um regime pluviométrico mais regular mantêm alta expectativa de colheita. Em Carroll, lavouras visitadas pela missão destacaram-se pela fertilidade do solo e boa sanidade foliar, enquanto em Indiana a colheita antecipada de soja registrou o equivalente a impressionantes 89 sacas por hectare.

Ainda assim, o sentimento geral no campo aponta para perdas generalizadas em relação ao ciclo anterior. “Desde o Texas, subindo todo lugar que a gente para o produtor fala de pelo menos de 10% menos que o ano passado, e não parecem estar tão feias as lavouras”, relata Lucas Costa Beber.

O dirigente também destacou o ceticismo dos produtores locais em relação aos boletins oficiais publicados pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), cujas projeções de estoques e safras muitas vezes divergem da realidade observada diretamente nas propriedades rurais.

Projeções globais e cenário brasileiro

Enquanto o mercado monitora o desempenho agrário norte-americano, as incertezas sobre a próxima safra brasileira também entram no radar internacional. O potencial impacto do fenômeno El Niño na agricultura do Brasil é frequentemente debatido pelos produtores dos Estados Unidos como um fator de influência na oferta mundial.

Para o líder da entidade, a relação entre a oferta global e a formação de preços dependerá não apenas do volume colhido no hemisfério norte, mas também do peso final dos grãos e dos estoques remanescentes.

“Eu não vejo possibilidade de pioras nesse cenário, já que os números ainda estão inflados da produção brasileira”, afirma Beber em entrevista ao Patrulheiro Agro. A combinação desses fatores externos e locais moldará os rumos do mercado internacional de commodities agrícolas nos próximos meses.

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