O setor agropecuário brasileiro vive um momento de ajuste após o ciclo recorde registrado entre 2020 e 2022. O cenário atual é marcado por juros elevados, restrição de crédito e endividamento, embora a recente alta nos preços da soja e do milho traga perspectivas de alívio. Segundo Anderson Galvão, fundador e CEO da Céleres Consultoria, o momento mais crítico pode ter ficado para trás, mas a lucratividade futura dependerá estritamente de escolhas estratégicas bem planejadas.
O fim da bonança e o foco na eficiência
A fase de ganhos excepcionais gerou uma expectativa que foge à normalidade histórica da atividade produtiva. A partir de 2023, o campo retornou a uma realidade de margens mais estreitas, exigindo busca constante por otimização operacional.
“Estamos num fundo de um poço que está longo. Três, quatro anos”, avalia.
Outro ponto de atenção é o comportamento do câmbio. Uma eventual valorização do real pode encolher os ganhos de exportação em moeda nacional, enquanto os gastos com insumos não caem na mesma velocidade. O consultor destaca que despesas com combustíveis, fertilizantes e folha de pagamento possuem dinâmicas próprias, o que retarda a chegada de qualquer alívio financeiro ao produtor.
“Depois que você aumentou o custo, tirar, voltar para trás é muito difícil”, lembra.
Tecnologia e o potencial do milho
Diante da pressão financeira, muitos agricultores cogitam cortar investimentos em defensivos e fertilizantes. No entanto, o especialista adverte que reduzir esses aportes sem uma análise agronômica adequada pode prejudicar severamente o teto produtivo das lavouras.
“Existe uma tentação muito grande de reduzir gastos cortando tecnologia. Só que isso é um verdadeiro tiro no pé, porque você corta a tecnologia, você corta potencial produtivo”, afirma.
Nesse contexto, o milho surge como ferramenta central para elevar a receita, sobretudo em sistemas de safra dupla. O avanço técnico transformou o cereal em um pilar econômico das propriedades. Para áreas de alta produtividade, a diferença está na gestão.
“A diferença de 150 para 250 é gestão. É uma equipe bem treinada, é o plantio na data certa, é o plantio na velocidade certa, é o ajuste fino da operação”, explica.
Paralelamente, o sorgo ganha tração com novas técnicas de manejo. Projetos da Céleres já identificam lavouras de sequeiro capazes de alcançar entre 130 e 150 sacas por hectare.
Etanol de cereais e o cenário geopolítico
A expansão do etanol feito a partir de cereais — como milho, sorgo e trigo — desponta como vetor de crescimento para a próxima década, gerando insumos valiosos para a pecuária e novas aplicações em setores industriais, aéreos e marítimos.
Ainda assim, o mercado externo impõe cautela. Como o volume colhido supera o consumo interno, as exportações continuam vitais. Disputas geopolíticas, instabilidades políticas e gargalos logísticos globais representam riscos ao escoamento rumo à Ásia. Para navegar por esse cenário, o Brasil precisa reconhecer sua posição estratégica global.
“Nós não somos uma potência militar. Nós não somos uma potência econômica, mas nós somos uma potência agroalimentar”, conclui.
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