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Por José Teixeira
Mato Grosso chega ao mês de novembro com indicadores que revelam duas realidades distintas de sua economia. Enquanto o estado aparece com o segundo maior índice de crescimento econômico do país, de 6,7%, segundo o Ranking de Competitividade dos Estados 2026, elaborado pelo Centro de Liderança Pública (CLP), o custo da alimentação continua pressionando o orçamento das famílias. Em Cuiabá, a cesta básica encerrou outubro custando R$ 929,58, valor 16,97% superior ao registrado no mesmo período do ano passado.
Os números, divulgados em levantamentos recentes, retratam um contraste importante. De um lado, Mato Grosso mantém sua capacidade de produzir, exportar e atrair investimentos. De outro, o crescimento da atividade econômica não significa, necessariamente, que o custo de vida esteja diminuindo ou que todas as famílias consigam ampliar seu poder de compra.
No levantamento do CLP, Mato Grosso ocupa a segunda posição nacional no indicador de crescimento econômico, atrás apenas do Acre, que registrou 7,1%. O desempenho coloca o estado à frente das demais unidades da Federação do Centro-Oeste, incluindo Mato Grosso do Sul, com 4,7%, Goiás, com 4,2%, e o Distrito Federal, com 3,7%.
O indicador integra o pilar Potencial de Mercado e utiliza uma média móvel de quatro períodos do crescimento anual do Produto Interno Bruto (PIB) real. A metodologia considera dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e estimativas da Tendências Consultoria. Portanto, o percentual de 6,7% não deve ser interpretado como o resultado definitivo do PIB de Mato Grosso em 2026.
A posição alcançada pelo estado está relacionada à força de sua estrutura produtiva, especialmente à participação do agronegócio, da agroindústria, da logística, do comércio e dos serviços que atendem às cadeias de produção e distribuição.
Um dos indicadores dessa capacidade econômica é o comércio exterior. Entre janeiro e setembro de 2026, Mato Grosso exportou US$ 26,5 bilhões, crescimento de 16,9% em comparação com o mesmo período de 2025.
Somente em setembro, as exportações alcançaram US$ 2,1 bilhões, com produtos destinados a 115 países. No mesmo mês, as importações somaram US$ 233 milhões, resultando em saldo comercial positivo próximo de US$ 1,9 bilhão.
O desempenho reforça a presença internacional de Mato Grosso e demonstra a importância das cadeias de soja, milho, carnes e demais produtos agropecuários na geração de receitas e na movimentação econômica.
A industrialização também vem ganhando espaço nesse processo, especialmente com investimentos destinados ao processamento de grãos, à produção de biocombustíveis e à ampliação da capacidade de armazenamento e transporte.
O avanço dessas atividades movimenta diferentes setores, desde propriedades rurais e transportadoras até empresas fornecedoras de equipamentos, serviços especializados e estabelecimentos comerciais das cidades.
Entretanto, o crescimento econômico estadual convive com um desafio que afeta diretamente a população: o encarecimento dos alimentos.
Levantamento do Instituto de Pesquisa e Análise da Fecomércio Mato Grosso (IPF-MT) mostrou que a cesta básica de Cuiabá encerrou a última semana de outubro em R$ 929,58. Apesar de uma redução semanal de 0,81%, que interrompeu quatro semanas consecutivas de aumentos, o preço continua significativamente superior ao registrado em 2025.
Na mesma semana do ano passado, o conjunto de alimentos custava R$ 794,70. A diferença alcançou R$ 134,88, representando aumento de 16,97% em doze meses.
A média mensal de outubro chegou a R$ 926, o maior valor registrado em 2026 até aquele momento.
A alta anual também supera a inflação geral acumulada no país em doze meses até setembro, medida pelo IPCA, de 4,58%. Embora os índices possuam metodologias, abrangências e períodos de referência diferentes, a comparação ajuda a demonstrar a intensidade da pressão sobre os preços dos alimentos monitorados na capital.
Para as famílias de menor renda, a elevação possui consequências particularmente relevantes, porque a alimentação representa uma parcela significativa das despesas mensais.
Com os produtos essenciais mais caros, sobra menos dinheiro para compromissos como energia elétrica, transporte, medicamentos, aluguel e outras necessidades domésticas.
O comportamento dos preços também apresenta diferenças entre os alimentos. Na última semana de outubro, a batata registrou queda de 7,96%, chegando a R$ 7,18 por quilo. O tomate recuou 3,69%, mas permaneceu com preço médio de R$ 14,27 por quilo.
Em sentido contrário, o óleo de soja subiu 2,47% na semana, alcançando R$ 9,08 por embalagem de 900 mililitros.
As oscilações estão relacionadas a fatores como condições climáticas, oferta agrícola, custos de transporte, armazenamento, processamento e demanda por determinados produtos.
O caso do óleo de soja merece atenção especial em um estado que figura entre os maiores produtores da oleaginosa. A disponibilidade de matéria-prima em Mato Grosso não significa, isoladamente, preços menores para o consumidor, já que o valor final depende também do processamento industrial, da distribuição, da tributação e das condições dos mercados nacional e internacional.
A situação evidencia uma característica da economia mato-grossense: a força na produção de matérias-primas e nas exportações não elimina a influência dos custos logísticos e das oscilações de mercado sobre os preços praticados no comércio local.
O presidente da Fecomércio-MT, Sebastião Gonçalves, conhecido como Tião da Zaeli, manifestou preocupação com o patamar alcançado pela cesta básica, destacando a dificuldade de recuperação do poder de compra das famílias diante dos aumentos acumulados.
O cenário também coloca em evidência a importância de políticas de desenvolvimento que permitam ampliar a renda, estimular a geração de empregos, melhorar a infraestrutura e reduzir custos que atingem diretamente a população.
A consolidação industrial pode contribuir para esse processo ao ampliar oportunidades de trabalho, demanda por serviços e circulação de recursos nas cidades. Entretanto, seus efeitos sobre os salários e o consumo dependem da distribuição dos benefícios do crescimento, da produtividade e da evolução dos preços.
Mato Grosso inicia novembro, portanto, com dois indicadores que merecem ser acompanhados conjuntamente. O crescimento econômico de 6,7% utilizado no ranking nacional demonstra o desempenho relevante de sua estrutura produtiva, enquanto a alta anual de 16,97% na cesta básica de Cuiabá revela a pressão exercida pelo custo da alimentação sobre o orçamento doméstico.
Para um estado que amplia sua presença no mercado internacional e movimenta bilhões de dólares em exportações, o desafio econômico também passa por fazer com que a expansão produtiva seja acompanhada de ganhos de renda e melhores condições de consumo para sua população.
O desempenho econômico de Mato Grosso é expressivo. A questão que permanece é como transformar essa capacidade de crescimento em benefícios mais amplos e duradouros para quem vive, trabalha e sustenta a economia das cidades mato-grossenses.
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