A pouco mais de dois meses da entrada em vigor de uma nova etapa da reforma tributária em 2027, o setor produtivo brasileiro convive com uma dúvida central: qual será o impacto real dos impostos nas operações diárias?
Desafios nos contratos de médio e longo prazo
Negócios fechados atualmente, cujas entregas ocorrerão nos primeiros meses de 2027, ilustram bem a gravidade da situação. No agronegócio, por exemplo, o fornecimento de insumos negociado para a próxima safra envolve faturamento no próximo ano. Sem clareza sobre a carga tributária efetiva, os regimes diferenciados e o aproveitamento de créditos, as margens de lucro podem ser seriamente comprometidas.
Situação semelhante ocorre na indústria frigorífica, onde a venda de produtos para redes supermercadistas exige o cálculo preciso de matérias-primas, logística e tributos. Nesses casos, variações inesperadas na tributação têm o potencial de transformar operações lucrativas em prejuízo.
O cronograma de transição e o impacto nos preços
Vale lembrar que 2026 marcará a fase de testes da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS). Em 2027, a CBS substituirá o PIS e a Cofins, enquanto o IBS passará por uma implementação gradual. No entanto, dominar o calendário não garante a previsibilidade dos reflexos financeiros. A definição de alíquotas, regras de créditos e adaptação de sistemas interfere diretamente na formação de preços e no fluxo de caixa.
A necessidade urgente de previsibilidade
Para o advogado tributarista da ZR Advogados, João Carlos Vanni Rodrigues, “a segurança jurídica não pode ser tratada como um benefício concedido ao empresário. Trata-se de uma condição indispensável para o desenvolvimento econômico, a preservação dos investimentos e a geração de empregos.” O especialista acrescenta: “na minha avaliação, não é razoável exigir que empresas assumam compromissos comerciais de médio e longo prazo sem que tenham clareza suficiente sobre os custos e procedimentos tributários que deverão observar.”
Diante desse cenário, a recomendação é que a elaboração de contratos ganhe atenção especial, incluindo cláusulas de revisão de preços e mecanismos de recomposição financeira. “Minha recomendação é que os empresários não aguardem janeiro para começar a agir. É necessário revisar contratos, realizar simulações tributárias, avaliar os efeitos sobre o fluxo de caixa, adaptar os procedimentos internos e buscar orientação especializada antes de assumir novos compromissos”, pontua Rodrigues.
Por fim, o advogado ressalta que o alerta não significa rejeição às mudanças: “ressalto que essa preocupação não representa oposição à reforma tributária. O Brasil precisa, efetivamente, de um sistema mais simples, eficiente, transparente e menos burocrático. Entretanto, uma transformação dessa dimensão não pode desconsiderar a realidade de quem precisa produzir, vender, contratar e investir diariamente.”
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